A história do blumenauense Cao Hering, arquiteto de coração, publicitário, chargista e escritor

Capa: Cao Hering – (arquiteto de coração), publicitário, chargista e escritor – Superação.

Tataravô paterno.

Carlos Hering, ou Cao Hering, irmão de Paulo Hering, ou Puc Hering, foi tataraneto de um dos “Dois Peixinhos”. Seu antepassado, Friedrich Hermann Hering (1835 – 1915), nascido na cidade alemã Hartha, Döbeln, Leipzig, Sachsen, a 250km de Berlim e um dos fundadores da Cia. Hering, migrou para o Brasil, mais precisamente a Blumenau, em junho de 1878.

Sua tataravó, Anna Minna (Foerster) Hering, nascida na cidade alemã Neustadt, Chemnitz, Sachsen, Prússia, no território da atual Alemanha, migrou para Blumenau dois anos depois do marido, em junho de 1880 – e testemunhou, nesse mesmo ano, a grande enchente de 1880, quando foi acolhida pelo Padre Jacobs na Igreja Matriz São Paulo Apóstolo.

Localização da cidade natal do pioneiro Hering, o “estrangeiro” da família Hering, tataravô de Cao Hering. Estrangeiro é a expressão que ele usava para as pessoas que chegavam a Blumenau para constituir família, trabalhar, residir, ajudar construir.
Os tataravós de Cao Hering na janela da sua residência na rua XV de Novembro, onde, atualmente, está localizado o Shopping da Hering. O casal cumprimentavam Karoline Müller, esposa de Dr. Fritz Müller, quando ia visitar a filha Anna Brockes. Gerlach, 2019.
Genealogia de Cao Hering.
Fonte: Site Family Search.
O tenista Bernhard Carl Hering, pai de Cao Hering e de Puc Hering.

Cao Hering, como era conhecido, nasceu em Blumenau em 13 de fevereiro de 1948. Seus pais foram Bernhard Carl Hering (1914 – 1999) e Renate (Blosfeld) Hering (1922 – 2019). Seu pai foi um tenista respeitado que teve certa dificuldade em conquistar uma pomerodense, mas a conquistou e se casou com ela em 1947. Renate Blosfeld foi uma moça de personalidade forte, que muito influenciou a trajetória profissional de seu filho primogênito Cao.

Os irmãos Cao e Puc.

(…)“ele (Bernhard) era sempre muito galanteador e minha mãe tinha uma bronca disso. O pessoal só andava a pé, e quando ela o via vindo do mesmo lado da calçada, atravessava a rua. E, obviamente, isso sempre acontece: o caso deu liga.” (HERING, 2014d). Casaram-se em 1947, Bernhard com 33 anos e Renate (registrada erradamente como Rena) com 24. LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014.

Caderneta militar de Bernhard Carlos Hering, quando matriculado na Escola de Soldados – 23BI, Blumenau, 21 de abril de 1931.
Os irmãos Cao e Puc.

Cao desenhava desde sua infância e apreciava ler, sendo esta última prática limitada por conta de seu problema de visão, mas mesmo assim não deixava de fazê-la. O desenho foi uma de suas preferências desde tenra idade. Era fascinado pelas histórias em quadrinhos. Ele ficava em casa, por muito tempo, desenhando, assim como na escola e depois na faculdade. Se observarmos atentamente seus desenhos desse período, já é notória sua criatividade por meio do lúdico e da abstração, comunicando, de maneira inteligente e cheia de humor uma pauta jornalística atual. Seus desenhos, seu legado, comunicam muito.
Uma de suas características, sempre foi a humildade, comprovada mais tarde para nós, no momento em que o conhecemos pessoalmente.

Até hoje eu não sou um desenhista de ponta, não é falsa modéstia. Eu vejo muita gente boa por aí.” Cao Hering, 2014.

Oficina de desenho na E. B. M. Profª Hella Altenburg, no bairro Salto em 2005.

Conhecemos Cao Hering em 2005, quando tivemos a coragem de ligar para ele, em seu escritório profissional, convidando-o para participar em um trabalho voluntário que fazíamos com um grupo maior de voluntários que administrava oficinas para alunos da Escola Básica Municipal Profª Hella Altenburg, localizada no bairro Salto, em Blumenau.

Não tínhamos muita esperança que o “cartunista do Jornal de Santa Catarina” dispusesse de tempo livre na sua agenda para ter um contato direto com os meninos, para os quais a nossa tarefa era introduzir a prática do desenho à mão livre, mas tentamos e ficamos muito surpresos mediante seu pronto aceite,. Entre outras coisas, foi o que nos motivou a escrever esta biografia, como um registro para a história de uma pessoa incrível que esteve na História de Blumenau e de Santa Catarina.

O pequeno Cao Hering.

Nesse dia de voluntariado na unidade escolar, Cao passou aproximadamente 3 horas de uma manhã de sábado com as crianças da escola municipal do Salto contando sobre sua profissão e como se formou chargista e cartunista. Nós ouvimos tudo e sequer ousamos registrar em vídeo esse momento único para não interferir na conexão que acontecia naquele momento.
Sua mãe, Renate, foi fundamental na sua vida para sua formação profissional. Cao Hering nasceu com um problema na visão, conhecido como Nistagmo, e também com pouca quantidade de melanina, além de certo nível de albinismo. Nistagmo é um fenômeno ocular rítmico, involuntário, inconsciente e automático. Em 2014, Cao Hering comentou para LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014:

É de nascença e fica assim. É sempre o mesmo padrão, nunca mudou absolutamente nada. E é uma visão que não é míope, não é hipermétrope, não é esse o problema. Por isso que muitas vezes as pessoas não entendem. Eu pego uma bola de basquete no meio do campo e consigo acertar na cesta, mas eu não consigo ler o que está escrito lá. Às vezes eu não reconheço uma pessoa a poucos metros, mas eu vejo ela vindo de longe e já fico preocupado “quem será? Será que eu conheço?”, é tudo assim. (Cao Hering, 2014).

Cao com sua mãe Renate (Blosfeld) Hering (1922 – 2019).

A superação a partir de suas limitações físicas é fruto da estreita relação que Cao tinha com sua mãe, a pomerodense Renate. Ouvimos sua história dentro do seu próprio depoimento para as crianças da Escola Básica Municipal Profª Hella Altenburg, quando se apresentou com a clara intensão de mostrar que tudo é possível, quando há o desejo, a firme convicção e a motivação, para que seus jovens ouvintes não desistissem diante das adversidades. Contou ele para as crianças, em 2005:

“Eu nasci com um problema na visão e não imaginava hoje estar desenhando como faço atualmente. A responsável por eu estar desenhando foi minha minha mãe que era uma “alemoa” determinada e forte, com uma personalidade marcante. Quando eu era moleque e chegou a idade escolar, eu não queria ir, por causas evidentes, eu não poderia acompanhar a turma. Assim eu acreditava. Falei minha intensão para minha mãe e ela reagiu firme. – Você vai na aula, sim. É preciso aprender. E me levou para a escola. Eu sentava bem na frente e sobrevivi. Devo isso a minha mãe. Vocês nunca devem desistir. Eu tenho um problema de visão e hoje me adaptei a ele. É bom vocês ficarem sabendo, que se me cumprimentarem na rua e não responder não é porque sou antipático, é porque eu não vejo e não consigo ver a pessoa. Se me encontrarem na rua, digam ‘Oi Cao, aqui é…..se identifiquem. ‘” Cao Hering, conversando com as crianças, da Escola Básica Municipal Profª Hella Altenburg, durante uma oficina de desenho, 2015.

Cao Hering encantou as crianças da oficina de desenho, em uma manha de sábado, da Escola Básica Municipal Profª Hella Altenburg. Ano de 2005.

Nós ficamos encantados com o repasse de seu próprio exemplo de vida para superar as adversidades. Depois deste momento, houve o tempo do desenho, quando os pequenos sugeriam motivos e ele, com maestria, desenhava na forma de charge. Divertiram-se quando solicitaram para ele desenhar nosso “fusca” pérola e o fez com alegria. Depois deste tempo, acompanhávamos com mais atenção seu trabalho e ideário, resultado de uma formação e inteligência ímpar.

Cao Hering, em entrevista dada para Rosiméri Laurindo e Sara Daniela Setter, em 2014, contou que, a partir da 5ª Série, começou a estudar no Colégio Santo Antônio, fundado pelo Padre José Maria Jacob, o qual acolheu sua tataravó Minna Hering durante a enchente de 1880, ano que tinha acabado de chegar a Blumenau. Até então, tinha estudado no Colégio Sagrada Família.

Colégio Sagrada Família – Blumenau, onde Cao cursou o primário.

Colegas seus de escola, presentes na fotografia acima que se manifestaram:

Tenho muita honra de estar ao lado do Cao, há exatos 53 anos (na foto). Ele é o orgulho da Santa Catarina intelectual, da Santa Catarina crítica e produtora de conhecimento, do catarinense que mete a cara sem preconceitos e enfrenta o debate (nem sempre concordo com ele), do ser ético e honesto que contribui para a fixação de um pais mais justo e democrático, do cara que conscientiza para que os leitores saiam do marasmo e pensem. Que pensem diferente, mas pensem. Godofredo De Oliveira Neto

Essa foto traz à lembrança, os bons tempos da minha infância no Colégio Sagrada Família em Blumenau. Neide Pasold Uriarte

Por motivos diversos, no primeiro ano no Colégio Santo Antônio, reprovou. Admitia que foi por falta de vontade. Dizia:

“Eu simplesmente não tinha o menor interesse em pegar livros e decifrar tudo aquilo. Talvez porque cansava. Não estudava, ficava jogando futebol. E aí, realmente fui pro brejo, repeti.” (Cao Hering, 2014).

No ano seguinte, repetindo a 5ª Série no Colégio Santo Antônio, foi um dos alunos destaque da turma, pois já sabia toda a matéria. Mas ao repetir o ano encontrou um amigo de vida. Encontrou em sua “nova” 5ª Série, Horácio Braun, o amigo que lhe apresentaria o ramo publicitário e que também, o apresentou ao Jornal de Santa Catarina JSC, onde começou, há mais de 30 anos, a fazer charges.

O gosto e a habilidade que tinha pelo desenho o fizeram definir a faculdade que cursaria: Arquitetura e Urbanismo.

República em Curitiba com colegas da república.

“(…)a imaturidade, a falta de um objetivo profissional claro, e, a pouca afinidade com cálculos e traços precisos, levaram ao insucesso na tentativa de entrar para o curso. No final dos anos 60, com a finalidade de prestar vestibular e iniciar a faculdade, mudou-se para Curitiba. Foram dois anos de festas e diversão, dividindo o apartamento com dois grandes amigos em uma república e deixando os estudos para mais tarde. No vestibular de Arquitetura, havia um exame de seleção prévia, uma prova específica de desenho artístico. Na segunda etapa, realizava-se a prova com as matérias convencionais (física, matemática, português, geometria, cultura artística, etc). Em suas três tentativas de entrar para a faculdade, Cao tirou notas altas na seleção prévia, mas ia muito mal na segunda etapa. LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014.

Arquiteto Vilmar Vidor, fundador do curso Arquitetura e Urbanismo – FURB.

Diante da frustração quanto à admissão no Curso de Arquitetura, Cao Hering mudou-se para Porto Alegre (RS) para prestar o vestibular por lá, onde se formara o Arquiteto e Urbanista, o Professor Vilmar Vidor, fundador do curso de Arquitetura e Urbanismo da FURB. O arquiteto Vilmar Vidor era 3 meses mais jovem que Cao. Nasceram no mesmo ano de 1948. Um em fevereiro e o segundo, em maio. Vilmar Vidor ingressou no Curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, no início do ano de 1968.

Em Porto Alegre, Cao Hering ingressou em um cursinho pré-vestibular, pois estava determinado a entrar na faculdade de Arquitetura. Neste período descobriu que matemática, física e geometria tinham seus fascínios e apreciou suas dobraduras. Estava determinado entrar na faculdade que escolheu. Ao tomar conhecimento do resultado do vestibular algo o surpreendeu muito. Atingiu ótima pontuação nas matérias em geral, conquistando a segunda melhor pontuação para o curso e reprovou na prova prática de desenho, área com a qual tinha sintonia desde sua infância. Prestou outros vestibulares para o curso de Arquitetura e Urbanismo e não teve êxito. Desse período, gostando muito de futebol, encontrou seu time do coração, o Grêmio.

Era também o time do Professor Vilmar Vidor.

Seu time do coração, o Grêmio, consequência de seus muitos anos residindo em Porto Alegre.

Durante uma caminhada na Praia de Armação, Penha, litoral de Santa Catarina, um de seus muitos amigos, o Hélcio Reis Fausto – perguntou ao Cao por que ele não cursava Comunicação. Cao não tinha a menor ideia do que se tratava o curso e pesquisou sobre ele. Gostou do conteúdo e o colocou como meta.

Em 1972, quase dois anos antes da formatura de Arquitetura e Urbanismo do professor Vilmar Vidor, Cao inicia o curso de Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e Propaganda na Faculdade dos Meios de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Famecos/PUCRS). Nesse interim, em 1974, o professor Vilmar Vidor foi contratado pela Prefeitura de Blumenau, na Administração do ex-prefeito Félix Theiss, para implantar o primeiro plano diretor de Blumenau, efetuado na administração do ex-prefeito Lazinho.

Diploma de Arquiteto da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre. Formatura em dezembro de 1973.

Enfim, no ano de 1972 em Porto Alegre, Cao Hering começou o curso de Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e Propaganda na Faculdade dos Meios de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Famecos/PUCRS). Apesar do curso de Comunicação ter iniciado em 1952 na PUCRS, havia apenas a habilitação em jornalismo. Foi em 1967 que iniciou o curso polivalente, de quatro anos, havendo no último ano opções para as especializações em Jornalismo, Publicidade/Propaganda e Relações Públicas. Mas devido a uma resolução do Conselho Federal de Educação, em 1970 o Curso de Comunicação Social foi reestruturado com especializações em Jornalismo, Relações Públicas e Publicidade/Propaganda, sendo que as matrículas dos alunos eram efetuadas nas diferentes habilitações já no ingresso da faculdade. LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014.

Com isso, Cao Hering ingressou nas primeiras turmas com habilitação em Publicidade e Propaganda na PUCRS com plena habilitação para Publicidade e Propaganda. Foi um pioneiro nesta área de atuação, na cidade de Blumenau, com formação acadêmica.

“Era um negócio totalmente novo, era o ‘boom’ do ensino. E a PUC montou um complexo de comunicação com televisão, rádio, jornal experimental e tudo isso. Hoje isso é muito fácil, hoje todo mundo tem isso, naquele tempo era raridade.” (Cao Hering, 2014).

O conteúdo do novo curso era voltado à prática no mercado de trabalho. A curiosidade e entusiasmo de Cao Hering pelo novo curso o levaram a entrar em contato com seu professor Luiz Augusto Cama, perguntando-lhe se poderia visitar a agência na qual ele trabalhava. Visita que foi o que foi consentida e assim, um tempo depois, Cao se tornou estagiário nela – tratava-se da conhecida agência Standard, Ogilvy & Mather, localizada em Porto Alegre. Foi estagiário no local por um período de aproximadamente 2 anos.
Cao Hering ingressou no mercado publicitário de Blumenau, conforme mencionado, por meio do convite de Horácio Braun, para estagiar na sua agência, Scriba Propaganda, nos períodos de férias da faculdade. Esta agência de Blumenau, foi fundada em 1973 por Horácio Braun e pelo radialista Osmar Laschewitz.

Cao trabalhava tanto na arte com seu traço cartunesco, quanto na redação, na criação de ideias. Porém, acredita que os trabalhos desenvolvidos durante seu estágio eram bastante singelos e não tinham grande profundidade, grandes sacadas. Mas para o mercado da época funcionavam muito bem. Após se formar, ele foi imediatamente contratado como criativo na agência Scriba e para se tornar sócio foi uma consequência natural. LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014.

Horácio Braun na terra natal da mãe de Cao Hering, Renate Hering.
Seu sócio na 1ª agência – Osmar Laschewitz.

Com outros empreendimentos e projetos, Horácio Braun saiu da sociedade na Scriba Propaganda e naturalmente, Cao Hering se tornou sócio da agência juntamente com Osmar Laschewitz, em sociedade que perdurou até 1982, quando Cao Hering decidiu montar sua própria agência, a Direcional Propaganda. localizada no 11º andar do edifício Catarinense, na rua XV de Novembro. Estivemos, em algum momento, na sua agência, por conta da pesquisa do trem na região – tema que apreciava muito e há muitos e muitos registros fotográficos que comprovam isso.

O trem sempre esteve na pauta de suas principais preferências.

Esta nova realidade de trabalho trouxe novos horizontes para Cao Hering, quanto à liberdade da criação, fazendo com que se sentisse livre para seguir sua própria tendência criativa e quem sabe outras atividades que também lhe proporcionavam prazer, como desenhar livremente e escrever.

Ao se tornar dono do próprio negócio, em 1982, Cao Hering se sentiu livre para impor suas próprias criações e sugerir o que realmente queria. A agência Direcional Propaganda funcionava no 11º andar do Edifício Catarinense, na rua XV de Novembro e foi estruturada com todos os departamentos de uma agência de publicidade, móveis novos, decoração nova, novos funcionário e clientes. Já nos primeiros anos da agência, conquistou bons clientes como Ceval, Willy Sievert, Móveis Butzke, Ataliba, Hering (propaganda local), Universal Veículos, Artex, (propaganda local), Engrenaco, entre outros. LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014.

Com o passar do tempo, o número de clientes chegou a cerca de 30 empresas; a agência ocupava seis salas do Edifício Catarinense. Trabalhavam em sua equipe, 18 colaboradores. Cao Hering não fazia distinção na forma de hierarquia e todos trabalhavam juntos, inclusive ele, como se fosse uma grande equipe. Há depoimentos de ex-funcionários testemunhando esta relação de trabalho, que também era muito animada.

Na década de 1990, aconteceram profundas mudanças no mercado publicitário nacional e regional, e também na tecnologia. Popularizou-se o computador e também programas específicos para esta área. Aumentou a demanda para a atividade e, também, a concorrência. Cao assumiu outros projetos, como a produção de charge, crônicas e o jornalismo.

A partir de então, na área publicitária propriamente dita, passou a fazer alguns trabalhos como freelancer. Os primeiros desenhos de Cao Hering foram publicados no jornal A Cidade de Blumenau, por uma iniciativa, ao acaso, de Horácio Braun.

Nesse clima informal, os primeiros desenhos de Cao Hering publicados foram no jornal, já extinto, A Cidade, de Blumenau. Após alguns desenhos levados por Horácio, Cao recebeu uma proposta para estagiar no jornal. Foi aí que criou o personagem Nix, um soldado americano na guerra do Vietnã. LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014.

Mesa de trabalho. Muita similaridade com a mesa de um arquiteto, quando está criando. E se pudéssemos ouvir, ainda tinha uma boa música no ar.

Quanto ao Jornal de Santa Catarina JSC, seu trabalho teve início em 1976, em página fixa, com charges e ilustrações alternando-se até que a charge passou a ser diária. Atuou no JSC até o ano de 2019.

O objetivo era ilustrar com motivos do cenário de Blumenau, palco de alguma manchete, que comunicasse uma ação importante noticiada no jornal, naquele dia.

Quando Cao Hering fundou a Direcional Propaganda, estava muito envolvido também, com sua carreira publicitária e ficou sem tempo para as charges. Durante a década de 1990, funcionaram tão bem que prosseguiam até bem pouco tempo, completando quase 50 anos na criação de charges.

Não é preciso se preocupar tanto, alega, pois as pessoas apenas se lembram das charges boas e “se essa de hoje não for muito boa, amanhã já tem outra. Não compromete o currículo (risos). Até vira gozação, o cara me encontra e diz “eu não entendi aquela piada”; aí eu respondo: “eu também não”. (Cao Hering, 2014).

Charge: ilustração humorística que envolve a caricatura de um ou mais personagens, feita com o objetivo de satirizar algum acontecimento da atualidade.

O termo charge tem origem no francês “charge” que significa “carga”.

A charge comunica e está alinhada como nível de entendimento de cada um.

O chargista é muito fruto de amadurecimento. Quanto mais velho, mas fácil, mais crítico, mais informações. E aí a charge sai mais naturalmente. Não que você sempre faça uma charge boa, mas ela tem mais conteúdo, é mais profunda, ela pega mais na veia. Quando a gente é jovem analisa pouco os fatos, a política. Não abraçou o mundo ainda. Então isso tudo fica mais fácil à medida que a gente envelhece, consegue lidar melhor com a convergência de informações, sabendo usá-las de um ângulo incomum, pouco óbvio. Na época eu era bastante superficial. (Cao Hering).

A partir de 2004, além das charges publicadas diariamente no Jornal de Santa Catarina JSC, Cao Hering começou a publicar suas crônicas em uma coluna fixa no caderno “Viver”, desse Jornal, nos finais de semana. Entre as publicadas, reservamos duas dentre as que guardamos e aqui as compartilhamos como amostra de seu trabalho como escritor.

A primeira crônica aqui apresentada se reporta a uma de suas inúmeras paixões explicitadas – o trem. Ele compareceu ao lançamento de nosso livro “A ferrovia no Vale do Itajaí – Estrada de Ferro Santa Catarina, em 30 de abril de 2010. Seu nome está registrado na lista daqueles que compareceram. Na época, não tínhamos a mínima noção do quanto o tema o sensibilizava.

Caderno “Viver” do Jornal de Santa Catarina JSC, 1º e 2 de março de 2008.

Apitos – 1º e 2 de março de 2008

Volto a um assunto apaixonante: trens.
Certa vez alguém me disse que “gostar de trem é coisa de alemão”. Se é verdade não sei, mas toda aquela parafernália – composições, trilhos, pontes, manobras, desvios, engates… – simplesmente me encanta. Desde meu entendimento como gente, me lembro desse fascínio lotando quase o tempo todo de meu imaginário. Diariamente enchia o saco do meu pai pra me levar à estação de Blumenau, lá pelas 19h, quando chegava o trem de passageiros – um momento, se me dão licença pelo lugar comum, mágico e inexplicável. Em criança meu dia-a-dia era similar situações com locomotivas a vapor. Qualquer lata ou cilindro imediatamente me lembrava uma caldeira. Andava tão avoado com tais sonhos a ponto de, certa vez, sacolejando num coletivo em companhia da avó, emergir de minha viagem intima, como maquinista, para lhe responder contrariado e em alto e bom som: “E para de me dizer que eu tenho que ser engenheiro”. O ônibus explodiu em gargalhada.

Na época do colégio, fazia correndo a tarefa e, pouco antes das 15h, ia de bicicleta até a boca do túnel no Bairro Ponta Aguda esperar o trem de Itajaí. Com o coração na boca, via a monstruosa e escura locomotiva mergulhar no apertado orifício de pedra para, imediatamente, já em liberdade, ganhar estrondosamente a ponte de ferro. Ainda com o calor da máquina pelo rosto, assistia inebriado a passagem da composição, saboreando e batuque das rodas Voltara com as narinas impregnadas de óleo queimado, mas de alma lavada.

Minha aventura mais marcante certamente aconteceu lá pelos pelas meus 15,16 anos. Uma enchente em pleno verão interrompeu a Rodovia Jorge Lacerda e eu, isolado na praia, precisava fazer a matrícula do colégio. A solução encontrada por um primo e um amigo, dono de um Galaxie americano, ambos também com compromissos em Blumenau, foi meter o carro sobre um vagão de carga, desses abertos, de uma composição mista partindo de Itajaí. E lá fomos os três acomodados no automóvel cruzando pontes estreitas raspando rochas, morros cortados, casas e deslizando por enormes trechos alagados, onde somente os trilhos ficaram de fora. Preciso explicar como me senti no final daquela viagem?
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Não faz tempo, já menos ansioso com os trens, passei a contribuir com a ABPF (Associação Brasileira de Preservação Ferroviária). O boletim enviado mensalmente por Luiz Carlos Henkels, coordenador regional, dá uma ideia muito clara dos vários movimentos no país empenhados no resgate de ramais, estações e equipamentos, bem coo a formação de museus, caprichosamente montados por abnegados saudosistas.
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Nosso primeiro livro (2001). O segundo, também com o tema ferroviário, foi lançado em 2010 e contou com a presença de Cao Hering no lançamento, onde também estava o professor Vilmar Vidor.

E, vejam só, não é um Clube do Bolinha, não. A escritora Fátima Venutti, aqui radicada, recentemente descreveu em seu livro “Último Apito” – com lançamento para 13 de março e cujo prefácio orgulhosamente me coube – um belo pedaço de sua infância e adolescência sobre trilhos paulistas. A arquiteta Angelina Wittmann, outra “estrangeira”, pesquisa o assunto no Vale do Itajaí e também nos oferece um interessantíssimo livro. Nele, resgata parte dessa história através de depoimentos, análise de documentos, relatos de curiosidades e fotos raras. Tudo colhido exaustivamente em arquivos de ex-pólos ferroviários como Rio do Sul e Blumenau.

Bem, para os apaixonados á fácil começar a falar sobre trens, o problema é arrematar o texto diante das novidades. em Santa Catarina se destaca a recuperação da Ferrovia do contestado, entre Piratuba e Marcelino Ramos (RS), exclusivamente para turismo e já em operação com o nome de trem das termas. Ainda para essa ferrovia, com ponto de partida em Porto União, há outros dois projetos no papel. Uva e Vinho e História do Contestado. Outro passeio, Rio Negrinho-Rio Natal, no norte catarinense, por certo, é o mais conhecido.

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E aqui, próximo de nós, a total restauração de 28 quilômetros da via férrea entre Rio do Sul e a localidade de Subida, em Apiúna, está perto de acontecer. O refazimento é uma contrapartida das obras da usina de Salto Pilão, já iniciada nas imediações. Este trecho tem dois túneis, três pontes de granito e duas de ferro, bastante imponentes, com aproximadamente 50 metros cada. Uma belíssima atração, numa paisagem de tirar o fôlego, que certamente reforçará o turismo na região. Aliás, já tem seu ponto de partida nos fins de semana, a ABPF opera uma composição a vapor em 400 metros de via no Bairro Bela Aliança, imediações de Rio do Sul. Existem ainda dois museus com rico acervo fotográfico em Indaial e Ibirama.

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Uma sugestão e se a centenária locomotiva Macuca, oгa repousando no nosso Paço Municipal, recebesse devida restauração e um trechinho de trilhos, não muito longe do Centro? Lugar há. E eu tenho certeza: para coisas assim também deve haver muita vontade politica.

Cao Hering apreciava modal ferroviário, de todos os períodos históricos e sua tecnologia adotada.

Sua família frequentava a praia Armação – Penha. Durante uma dessas visitas, Cao teve a inspiração de escrever uma crônica, ao observar um exemplar arquitetônico local, que despertara sua antiga paixão pela arquitetura, arte e técnica pela qual também sentia vocação. A visita foi feita à velha Pedra da Fortaleza, muito perto de onde ele passara os melhores verões de sua infância e juventude.

A Garagem-Casa – março 2017

“Visita à velha Pedra da Fortaleza (Armação/Penha), muito perto de onde passei os melhores verões de minha infância e juventude.” Facebook.
A garagem-casa.

Vão longe os rústicos dias de verão em Armação de Itapocorói. O hoje tão modificado pedaço de orla no município de Penha, não raro lota as lembranças de minha juventude. Água salobra bombeada manualmente, o fumegar acre das velas e do lampião que preenchia os cômodos, o denso breu das noites ventosas entrecortadas pelo reboliço do bambuzal rente ao telhado, a vegetação à beira-mar crivada de rosetas, o tuc-tuc das baleeiras ainda no escuro bem antes do nascente, a visita do terno de reis na hora do jantar, os passeios de lanterna pela areia depois, o exausto adormecer nos beliches em madeira crua…
Algas, ouriços, o peixe da rede para a frigideira, o vendedor – “ô dona Maria!” – mostrando o cesto de goiabas, a geladeira a querosene, puçá, caiaque, batelão, salgas, cascas de camarão atiradas ao mar, os andrajos dos personagens nativos, os toscos atalhos abertas na restinga, a farinha embrulhada e o copo de pinga até a borda sobre o balcão da vendinha de secos e molhados, a carroça do padeiro, o zunido das cigarras se sobrepondo à rebentação suave, o aroma de aroeira e maresia. Ah, e a primeira cerveja à sombra depois do mergulho…

Os veraneios nas casas ainda mobiliadas de improviso naquela Armação agreste, de poucos recursos e acesso empoeirado, eram impregnados dessa poesia simples da qual só me dei conta mais tarde. Pouco sobrou. Hoje, da quase cidade de veias asfaltadas, de suas mil câmeras nada escapa. O cheiro acre vem das caminhonetes e o zunido das voadeiras e motos aquáticas abafa o tuc-tuc das renitentes baleeiras. Os condomínios verticais já arranham o laranja-avermelhado no pôr-do-sol.

Em janeiro deste ano, no entanto, percebo num repente, à beira da Avenida São João, aquela antiga paralela ao mar – perto de onde veraneávamos – espremida entre muros descuidados, uma velha e conhecida construção: era, digamos, a “garagem-casa-de-praia” do lendário chef Hugo Socher. A conhecida fachada, de acabamento um tanto grosseiro, ainda exibia a enorme porta da garagem encimada pelas duas janelas do sótão em tábuas grosas sem vidro (estavam escancaradas, e na da esquerda esvoaçava uma cortina deplorável). O abandono lhe dava um rosto envelhecido, assustado, triste, de sorriso invertido. O capim lhe subia pelas canelas e um meio-fio sem planejamento impedia a abertura das asas da garagem para a rua. O outrora originalíssimo refúgio de verão, de tantos encontros e divertidos causos, agora sugeria, pelo menos para mim, um inequívoco semblante de choro… E uma placa com dois telefones anunciava o desfecho de uma história que conheci muito bem.

Foi ali, meu caro e paciente leitor, que o mestre dos temperos, um dos divisores da cozinha blumenauense, vindo de uma Alemanha em guerra, criou um dos mais deliciosos e espartanos redutos para seus verões tão diferentes dos europeus. A enorme garagem para a barulhenta caminhonete Ford, que no meu olhômetro perfazia metade da morada do Hugo, tinha sempre as paredes repletas de ferramentas e uma escada que levava ao piso superior mobiliado por duas ou três camas simples. A cozinha protegida apenas por treliças dava para um longo e agreste terreno sombreado até a praia, bem em frente à enorme e conhecida Pedra da Fortaleza.

No entanto, a vida leve e solta das temporadas, longe dos negócios, acontecia mesmo era num puxado lateral e aberto, em torno de uma mesa rodeada de cadeiras de palha, onde, bem ao lado e bem à mão, os cascos escuros eram mergulhados no poço artesiano, presos por longos barbantes. Os habitués, de origem teuta, claro – quase sempre em velhas bermudas e peitos nus –, de tempos em tempos içavam “noch ein paar kühle Flaschen” para regar os inequívocos camarões e o insuperável Zwiebelkuchen do mestre Socher.

Tivesse eu dinheiro, compraria e recuperava aquela inesquecível garagem-casa.

Em 2014, comentou em uma entrevista sobre o prazer que sentia em escrever crônicas.

Isso hoje me satisfaz muito mais do que bolar um anúncio. A crônica instiga mais. Escrever sobre fatos, fazer análises, levantar um assunto polêmico, criticar, falar contra o governo, falar a favor, contar uma história… E existe uma resposta muito boa do público. Eu vejo isso pelos e-mails e as cartas no jornal. Quer saber? Honestamente? Acho ótimo quando vêm as cartas sentando o pau em mim. A adversidade é um baita “simancol”. (Cao Hering, 2014).

Cao Hering não apreciava falar de si mesmo. Disse isso, ao ser inquirido pelas pesquisadoras Roseméri Laurindo e Sara Daniela Setter, em 2014. Achava chato ficar se elogiando por algum êxito ou destaque. Mas com um pouco de insistência por parte das entrevistadoras ele comentou:

“Eu sou uma pessoa assim um pouco irreverente, por causa das charges. Mas hoje eu seguro mais as opiniões, antes eu falava e era saia justa, dava meus palpites e acabava colecionando desafetos. E também tenho meus momentos de timidez” (Cao Hering, 2014).

Cao acreditava que a idade é uma questão de atitude e que muitas de suas charges, cartuns e crônicas ainda fariam as pessoas pensarem, rirem, refletirem, questionarem, imaginarem ou discordarem de suas ideias expressadas em seus traços e palavras. Mais ainda: neste momento, de sua partida, que tomou todos de surpresa, pois para muitos e para nós também, Cao Hering sempre estaria ali…desenhando e escrevendo.

A publicidade não foi a primeira opção e apenas mais tarde revelou-se como uma alternativa. A graduação em Publicidade e Propaganda que cursou em Porto Alegre, num momento em que era uma grande novidade nacional, traz contribuições para o entendimento do contexto da educação na época. O estágio que realizou na agência Standard, Ogilvy & Mather contrasta com a atual realidade do setor. Já sua carreira publicitária resgata e traz conhecimento histórico da publicidade blumenauense, que ainda era incipiente e não contava com profissionais formados na área. Aprendia-se na prática a trabalhar neste setor e Cao Hering exerceu também o papel de professor (informalmente) de alguns profissionais com quem trabalhou. Ele auxiliou a agência Scriba Propaganda a tornar-se a maior agência do interior do estado e posteriormente criou sua própria agência, Direcional Propaganda, onde conquistou prêmios e realizou um acordo operacional com a legendária agência de São Paulo, DPZ. A vida de uma pessoa não é desconexa no tempo e espaço, conecta-se com a época, com as pessoas ao redor, atitudes passadas, decisões, opiniões, cultura, locais, enfim, muitos fatores. Nesse sentido, outras facetas de Cao Hering também foram estudadas: a constituição de sua família (filho, ex-esposa e namoradas) e o retrato do Cao chargista, do Cao colunista e do Cao artista, além do Cao Publicitário. Facetas estas que sempre exacerbam sua irreverência e humor. Apesar da personalidade forte e humor sacana, ao entrevistá-lo percebe-se uma pessoa com o falar simples e descontraído e que não gosta de se vangloriar por seus feitos. LAURINDO, Roseméri; SETTER, Sara Daniela, 2014.

Os trilhos do trem e Cao Hering.
Na “estação ferroviária, às margens da ferrovia no Museu de Hábitos e Costumes.

Após esta rápida conclusão sobre a trajetória e personalidade de Cao Hering, foi esta impressão que tivemos no momento em que o conhecemos, quando conversava com as crianças da Escola Básica Municipal Profª Hella Altenburg, de cujos registros fotográficos restou somente este, com resolução pequena, mas o suficiente para comprovar este momento especial de nossas vidas. Cao Hering, “o arquiteto” (porque arquitetura é uma vocação a partir da arte e a vocação nasce com o artista), soube utilizar a profissão que o escolheu, para que, anonimamente, fizesse a diferença na sociedade, através de sua contribuição para muitas pessoas que cruzaram seu caminho.
Em seu trabalho deixava explícito o quanto foi arquiteto.

Com as crianças na Escola Básica Municipal Profª Hella Altenburg, em 2005.

Nos anos 70, publiquei uma série de charges para o JSC criticando a onda enxaimeloide que assolava Blumenau. Proliferavam construções imitando uma arquitetura, que nunca foi nossa, enquanto eram sacrificados antigos edifícios – erguidos pelos colonizadores – em belíssimas linhas clássicas ou verdadeiramente típicas. Uma dessas charges virou quadro em uma exposição e hoje pertence à amiga Cylaine Figueiredo. Sábado passado ela me enviou a foto da “obra”. Aí vai o recorte sem a moldura. Bons tempos. Cao Hering.

Cao Hering.

Em 2013 realizou exposições de cartuns e obras plásticas, como a Mostra “CaoArt”. Neste evento apresentou cerca de 30 telas que reinterpretavam, de forma bem-humorada, obras de artistas consagrados. ​

Mostra “CaoArt”.

Em 6 de dezembro de 2022 Cao lançou o livro “Cronicidade”, junto com o astrofísico Adolfo Stotz Neto com 46 crônicas. Já havia lançado o livro de Charge, que segundo palavras do próprio Cao, somam mais 800 ao todo. Escolhemos uma amostra para ficar neste espaço com um registro de seu trabalho, a exemplo das crônicas, para a História.

Charges – amostra

A primeira será acompanhada de um comentário que ilustra sua sensibilidade para a arquitetura que poucos a tem.

Nos anos 70, publiquei uma série de charges para o JSC criticando a onda enxaimeloide que assolava Blumenau. Proliferavam construções imitando uma arquitetura, que nunca foi nossa, enquanto eram sacrificados antigos edifícios – erguidos pelos colonizadores – em belíssimas linhas clássicas ou verdadeiramente típicas. Uma dessas charges virou quadro em uma exposição e hoje pertence à amiga Cylaine Figueiredo. Sábado passado ela me enviou a foto da “obra”. Aí vai o recorte sem a moldura. Bons tempos… Cao Hering, 4 de agosto de 2024.

Uma amostra – demais charges

Cao Hering conquistou 25 prêmios de reconhecimento. A última vez que encontramos Cao Hering foi em 19 de fevereiro de 2023, na cidade de Ibirama, no restaurante “Ilha das Bromélias”. Ele estava na companhia de parentes e de sua esposa Maria Júlia Zimmermann Hering.

“Ilha das Bromélias – Ibirama/SC – em 2023.

Cao Hering faleceu em 21 de março de 2025, com 77 anos, no Hospital Santa Catarina. Ficou seu legado composto de suas crônicas, charges, trabalhos publicitários, seu ideário, para a História de Blumenau, para a História de Santa Catarina.
Deixou inúmeros amigos e um, em especial, nós o encontrava com certa frequência na Rua XV de Novembro, na companhia de Cao. Possui o mesmo olhar apurado para as movimentações sociais e grande facilidade com as palavras que tinha Cao. Seu amigo? Valther Ostermann.

Valther Ostermann e Cao Hering.

Cao Hering escreveu, referindo-se a um evento tradicional compartilhado com o amigo Ostermann e registrado na fotografia anterior, com o humor característico (e comum a ambos):

Na ocasião, Valther e eu, dois dos maiores nomes do jornalismo mundial, demos uma passada no Stammtisch com a intenção de dar entrevistas, autógrafos e conversar com os fãs. Ninguém deu bola…Cao Hering.

Seus pais, Renate (Blosfeld) Hering e Bernhard Carl Hering.
Com o filho Carlos Hering Filho.
Família.

Um registro para a História.

 

Sou Angelina Wittmann, Arquiteta e Mestre em Urbanismo, História e Arquitetura da Cidade.
Contatos:
@angewittmann (Instagram)
@AngelWittmann (X)

Referencias

  • GERLACH, Gilberto Schmidt. Colônia Blumenau no Sul do Brasil / Gilberto Schmidt-Gerlach, Bruno Kilian Kadletz, Marcondes Marchetti, pesquisa; Gilberto Schmidt-Gerlach, organização; tradução Pedro Jungmann. – São José: Clube de Cinema Nossa Senhora do Desterro, 2019. 2 t. (400 p.): il., retrs.
  • LAURINDO,  Roseméri; SETTER, Sara Daniela. Pensa ComSanta Catarina: Perfil Biográfico de Cao Hering. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – XXXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – Foz do Iguaçu – 2 a 5/9/2014.
  • OLIVEIRA, Natiele. Cao Hering, pioneiro da publicidade e chargista, morre aos 76 anos. Guararema News. 21 de março de 2025 – 09:33h. Disponível em: https://guararemanews.com.br/seguranca/cao-hering-pioneiro-da-publicidade-e-chargista-morre-aos-76-anos/ . Acesso em: 21 de março, 11h53.

 

 

 

 

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