Quem foi Lucia Camargo, que dá nome à principal mostra do Festival de Curitiba

Quem já subiu nos palcos da cidade, em especial durante o Festival de Curitiba, reconhece o nome Lucia Camargo. Mesmo antes de ser homenageada na mostra principal do evento, a jornalista, professora e gestora cultural já era celebrada por produtores de arte e cultura no país. Desde 2022, a mostra leva seu nome, dois anos depois de seu falecimento. Saiba mais sobre a trajetória de Lucia Camargo, das redações dos jornais a um dos maiores festivais culturais da América Latina.

Da rua ao jornal

Curitiba sempre esteve acompanhando Lucia, mesmo quando ela já não morava mais na capital paranaense. Afinal, Lucia Maria Glück Camargo nasceu na cidade, em 06 de janeiro de 1944. Filha de um farmacêutico e de uma professora (João Glück e Lidia Grenier Glück), era muito comunicativa desde pequena. O pai foi dono de uma farmácia na Boca Maldita, no centro da cidade, talvez um prenúncio de suas atividades formadoras.

Estudou jornalismo na PUC-PR nos anos 1960, onde passou a montar shows com música de protesto contra a ditadura, depois de 1964. Foi a primeira mulher a trabalhar na redação do jornal O Estado do Paraná. Em 1968, começou a dar aulas nos cursos de jornalismo da cidade. Foi professora em instituições como a PUC e a Universidade Federal do Paraná por 25 anos. Também foi mestra em História do Brasil.

Quando casou com o chefe de reportagem, Francisco Camargo, o Pancho, deixou o jornal. Vivou quase 30 anos com o marido, com quem teve três filhos: Fabiano, Adriana e Guilherme. O olhar atento, o senso de justiça e a paixão pela cultura se refletiram nos filhos, que são, respectivamente, um jornalista, uma advogada e um produtor de audiovisual. Francisco e Lucia se divorciaram em meados dos anos 1990.

Cultura

Passou a se interessar por cultura ainda na faculdade e ingressou na área formalmente nos anos 1970, ao estruturar a área de divulgação do Departamento de Cultura do Paraná. Nessa época, começou as ligações com São Paulo, ao promover intercâmbios de espetáculos entre os estados. Ela moraria mais tarde no estado vizinho, onde foi diretora do Teatro Municipal de São Paulo e secretária-adjunta da cultura do estado.

Atuou como presidente da Fundação Cultural de Curitiba, secretária de estado da cultura do Paraná, diretora do Teatro Guaíra, diretora da regional sul da Funarte. Foi curadora do Festival de Teatro de Curitiba por dez anos, até 2015, e também jurada do Prêmio Shell, o mais importante do teatro brasileiro. Até suas viagens eram culturais, acompanhando festivais de teatro na França, Itália, Venezuela, Alemanha e Estados Unidos.

Arte de Valdir Rodrigues para Lucia Camargo. Foto: Arquivo Pessoal.

Arte de Valdir Rodrigues para Lucia Camargo. Foto: Arquivo Pessoal.

Curitiba

Mesmo quando deixou a cidade, voltava com frequência para Curitiba. Gostava de ficar hospedada em um hotel na Boca Maldita e andar a pé pela região. Visitava os filhos, netos e o irmão mais novo, João Achilles Grenier Glück. Mesmo quando não atuava mais na curadoria, marcava presença no Festival de Curitiba com frequência – a paixão pelo teatro estava sempre presente. Assim como por outras artes: tinha uma biblioteca considerável, com catálogos de arte e romances, em especial os livros policiais, como do clássico escritor belga Georges Simenon.

Selo

Lucia também inspirou um selo comemorativo na SP Escola de Teatro. A Associação dos Artistas Amigos da Praça criou uma iniciativa de programa editorial de livros no campo das artes, pedagogia, ciências sociais e psicanálise. O selo Lucias homenageia Lucia Camargo, que foi coordenadora da escola. Já foram publicados livros sobre a trajetória de grupos de teatro, resgates históricos de espaços culturais e dramaturgias. “Me utilizando das palavras da amiga querida Marici Salomão, minha mãe ‘tinha um olhar voltado ao outro’, e nada mais coerente que um selo leve o nome dela, justamente como uma forma de divulgar e difundir a cultura, algo que ela sempre acreditou e defendeu”, comentou na época do lançamento do selo a filha, Adriana Camargo.

Legado

Faleceu em 20 de julho de 2020, em virtude de um acidente vascular cerebral. A família recebeu uma sequência de mensagens ressaltando sua relevância para a arte e para cada carreira individual. Eram muitas histórias de pessoas agradecendo pessoalmente por terem encontrado com ela, que estimulou pessoas a correr atrás de suas carreiras, dando conselhos e perseguir seus sonhos. “Sempre tivemos a noção da importância dela no meio cultural, mas ficamos realmente impressionados”, explicou Fabiano. “Recebemos muitas mensagens e telefonemas de pessoas afirmando isso: sua mãe mudou minha vida, me abriu portas, me incentivou a correr atrás do meu sonho”.

Festival

Quando a pandemia impediu a edição de 2020 do Festival, o evento teve que fazer uma pausa. No mesmo ano, ela veio a falecer. Por toda essa importância no meio teatral, pela influência não só no Festival como curadora, mas por tantas vidas que ela tocou, a mostra oficial teve seu nome alterado para Mostra Lucia Camargo, em 2022. “Chamar a mostra de ‘Mostra Lucia Camargo’ surgiu com a intenção de sempre relembrarmos quem foi a Lucia e sua importante contribuição não só na cultura do Brasil, mas essencial na construção do Festival”, conta Fabíula Passini, diretora do Festival de Curitiba. “Acreditamos que falar sobre a Lucia Camargo todos os anos é uma forma de manter viva a memória dessa pessoa que construiu um vasto legado para as artes cênicas”.

No guia do Festival daquele ano, Fabiano assinou um texto, com colaboração dos irmãos, ressaltando não apenas a carreira, mas a pessoa que Lucia Camargo foi. Uma apaixonada pela arte e pela presença, pelo contato humano e pela criatividade. O texto celebra um modo de ver a vida condensado nos ensinamentos dela: “Me inspiro em três das maiores lições aprendidas com ela – ter coragem para enfrentar os desafios, ajudar as pessoas e sempre manter o bom humor – e vamos em frente”.

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