Travessia do rio Itajaí-Mirim: há 120 anos Brusque trocava a “balsa do Centro” pela ponte Vidal Ramos

Durante as primeiras décadas da história de Brusque, a travessia do rio Itajaí-Mirim era realizada por meio de canoas, pequenos barcos e balsas. Esses meios de transporte, ainda empregados para o deslocamento de cargas e pessoas, foram essenciais nas regiões onde hoje se encontram algumas das pontes da cidade. No entanto, entre todas essas opções, a que mais se destacou foi a famosa “balsa do Centro”.

Desde a fundação de Brusque, o ponto de embarque utilizado para o deslocamento da balsa (e das outras embarcações) ficava próximo ao local onde hoje está localizada uma estrutura que era de um posto de combustível, ao lado da Ponte Estaiada.

Resquícios históricos indicam que a primeira “aposentadoria” da balsa ocorreu há 120 anos, em 1905, com a inauguração da primeira ponte no local, a famosa Ponte Vidal Ramos, em 22 de novembro daquele ano.

Cavaleiros próximos do ‘porto fluvial’ do Centro em 1903 | Foto: Museu Casa de Brusque

Além das balsas, também existiam as barcaças, que eram embarcações de grande porte, de fundo chato e reforçadas, utilizadas para o transporte de cargas.

Essas embarcações, também chamadas de lanchas, foram gradualmente desaparecendo após 1925, com o aprimoramento das vias terrestres e o surgimento dos caminhões de carga.

Barcaças no rio Itajaí-Mirim | Foto: Maria Luiza Renaux

Segundo o relato do primeiro historiador de Brusque, Ayres Gevaerd, publicado no número 13 da revista “Notícias de Vicente Só”, da SAB, em 1980, as “lanchas”, mesmo não sendo mais utilizadas para travessias oficiais após 1925, continuaram a ser motivo de diversão para os “meninos e moços da época”. Leia o relato:

“Lanchas e balsas, atracadas em nosso porto, lado direito do rio, junto ao pilar da Ponte Vidal Ramos, eram motivo de alegria para meninos e moços, naqueles tempos. Achavam excelentes as balsas pela extensão, que permitia corrida para dentro d ‘água e, os corredores que existiam nos dois lados da lancha serviam de trampolins.
Os meninos se banhavam inteiramente nus e os ‘marmanjos’ com calções, sendo as roupas guardadas nas lanchas ou nos capinzais próximos. O banho terminava quase sempre com o choro desesperado dos menores, cuja roupa, principalmente as mangas das camisas, apareciam com nós muito apertados, que os maiores faziam”.

Retorno depois da enchente

Apesar de sua “aposentadoria” em 1905, a inauguração da ponte não significou o fim da balsa no local. Ela voltaria a ser utilizada para travessia no mesmo local em 1952, quando a ponte Vidal Ramos, que era de ferro, foi levada pelas águas do rio em março. Enquanto uma nova ponte não era concluída, a balsa retomou seu papel no transporte da população.

Em substituição à Ponte Vidal Ramos, foi inaugurada em 27 de setembro de 1953 a Ponte Irineu Bornhausen, que permaneceu de pé até 8 de agosto de 1980, quando desabou às 15h30, com três pessoas e onze carros trafegando sobre ela.

Retorno da balsa em 1952 | Foto: Erico Zendron

Em 19 de setembro de 1981, uma nova ponte foi inaugurada, permanecendo até 2002, quando foi demolida para dar lugar à construção da Ponte Estaiada. Finalmente, em 20 de abril de 2004, foi inaugurada a Ponte Estaiada Irineu Bornhausen, que permanece em funcionamento até os dias atuais.

A nova ponte, além de seguir um padrão arquitetônico inovador, é a primeira estrutura de concreto branco edificada no Brasil. Graças à tecnologia empregada, a ponte é sustentada por um pilar central de 36 metros de altura, localizado na margem direita do rio Itajaí-Mirim, com um vão livre de 90,88 metros.

Desse pilar central partem quatro conjuntos de estais, compostos por 512 cabos, que exercem uma força total de 4,6 mil toneladas. A obra utilizou dois mil metros cúbicos de concreto branco.

Contexto histórico 

Após a Revolução Federalista, em 1892, a administração da prefeitura de Brusque foi alterada, e a cidade passou a se chamar Brusque, anteriormente conhecida como a freguesia de São Luís Gonzaga. O grande desafio da região, no entanto, consistia na travessia das margens do rio.

Maximilian von Schneeburg, fundador e primeiro diretor da então colônia Itajahy, estabeleceu Brusque na margem direita, que na época era chamada de margem esquerda, pois o acesso era feito de Itajaí para a Serra.

A sede provisória foi instalada na Praça Vicente Só, em frente ao atual Clube Bandeirante. No entanto, o Major Rivieri, responsável pela medição das terras do governo, por ordem do Império, determinou que a melhor localização seria do outro lado, onde hoje se encontram a Igreja Católica e a Igreja Luterana. Ali, abaixo, ficava uma pequena praça, onde também foi construído o castelo do Cônsul. Essa área pertencia à colônia Itajaí.

“O problema inicial foi que Schneeburg abriu uma frente de colonização rumo ao Poço Fundo, e o rio impedia o acesso. Assim, a travessia era feita por barcaças, com uma canoa atravessando de um lado para o outro, sem maiores problemas. A travessia por canoas já era uma prática histórica. Depois da Revolução, foi feito o porto nas cabeceiras, que na época era conhecido como Porto das Canoas, pois o nível das águas era bem mais alto do que hoje. Era até ali que as embarcações chegavam, como as de baixo calado, chamadas chatas”, relembra o historiador Aloisius Carlos Lauth.

O Porto das Canoas também funcionava como ponto de carga e descarga de mercadorias, contando com um trapiche de pedras, um mastro de madeira e um guincho.

“O guincho era fundamental para a descarga do maquinário importado por Carlos Renaux, durante a ampliação de suas indústrias. Também nas cabeceiras da Ponte Coronel Pereira Oliveira (atual ponte Mário Olinger), realizava-se o embarque de produtos com destino ao porto. Era por essa ponte que se abria a rua Itajaí, que recebeu esse nome por ser o caminho que levava até a cidade de Itajaí. São alguns fragmentos da nossa história”, complementa o pesquisador Aluizio Haendchen Filho.


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Kai-Fáh: Luciano Hang foi dono de bar em Brusque, onde conheceu sua esposa:
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