Funcionários da Caixa relatam crises de saúde mental e reivindicam direitos

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O alto índice de adoecimento mental entre trabalhadores do setor bancário no Brasil tem gerado alerta entre sindicatos e especialistas. Dados da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT) revelam que 80% dos bancários já enfrentaram problemas de saúde relacionados ao trabalho, com quase metade buscando acompanhamento psiquiátrico e 91,5% recebendo prescrição de medicamentos.

Na Caixa Econômica Federal (Caixa), o cenário é ainda mais alarmante. Entre 2012 e 2022, houve um aumento de 135% nos afastamentos por doenças mentais. De acordo com o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apenas em 2022 foram registrados 395 afastamentos por transtornos psicológicos, representando 73% do total de afastamentos acidentários.

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Subnotificação pode esconder números ainda maiores

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Imagem: rafapress/shutterstock.com

Sérgio Takemoto, presidente da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), alerta que os números oficiais podem estar subestimados. “Muitos casos são classificados como acidentes de trabalho pelo código B91 do INSS, mas a subnotificação é uma realidade. O problema é muito maior do que os dados mostram”, explica.

A pressão intensa por metas, associada a um modelo de gestão que gera insegurança salarial, é apontada como um dos fatores de adoecimento. Segundo Takemoto, o modelo hierárquico da Caixa penaliza quem não cumpre metas, já que a perda de um cargo gerencial pode representar uma redução drástica nos rendimentos. “Isso cria uma cultura de medo e leva ao esgotamento psicológico”, ressalta.

Assédio moral e sexual: um histórico preocupante

A crise de saúde mental dos funcionários da Caixa também tem relação com episódios de assédio moral e sexual. Em 2022, um escândalo envolvendo o então vice-presidente do banco, Antônio Carlos Sousa, evidenciou a cultura de abusos dentro da instituição. “O assédio moral era quase institucionalizado”, denuncia Takemoto.

Sindicatos apontam que, apesar das denúncias e mudanças na alta gestão, ainda há pouca transparência e vontade política para transformar esse cenário. “Discutimos o tema há anos, mas as mudanças são lentas. Os trabalhadores continuam sofrendo pressão, e o ambiente ainda é tóxico”, acrescenta.

Impactos nacionais da crise no setor bancário

Um estudo da Contraf-CUT em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) revelou que a estrutura de gestão dos bancos é a principal responsável pelos altos índices de transtornos mentais na categoria. Além da pressão por produtividade, a insegurança no ambiente de trabalho contribui para quadros de depressão severa e, em casos extremos, suicídio.

Para especialistas, a lógica de maximização de lucros dos bancos agrava a situação. “Os bancos têm registrado lucros recordes, mas isso ocorre às custas da saúde dos empregados”, pontua Takemoto.

Funcionários cobram melhorias no Saúde Caixa

Diante do aumento dos afastamentos, a categoria intensificou a mobilização por melhorias no plano de saúde dos empregados, o Saúde Caixa. O plano, que atende cerca de 274 mil pessoas, passou por mudanças desde 2016 que encareceram os custos para os funcionários.

Anteriormente, a Caixa arcava com 70% das despesas, enquanto os empregados contribuíam com 30%. Após uma reformulação, o banco passou a limitar sua participação a 6,5% da folha de pagamento, fazendo com que os custos fossem divididos igualmente entre empresa e funcionários. “A categoria luta pela recomposição do acordo original e por mais transparência na gestão do plano”, destaca Takemoto.

Abaixo-assinado pressiona banco por mudanças

A aposentada Elisabete Moreira, que trabalhou na Caixa por 25 anos, liderou um abaixo-assinado pedindo melhorias no plano de saúde. O documento reuniu 25.998 assinaturas e denuncia problemas como a terceirização dos serviços, a piora na qualidade do atendimento e falhas na comunicação com os beneficiários.

O documento foi entregue à diretoria da Caixa em 25 de março, com reivindicações como:

  • Maior transparência nos custos do Saúde Caixa
  • Combate ao assédio moral dentro da empresa
  • Melhorias na estrutura de gestão de pessoas
  • Instalação de comitês regionais para credenciamento de novos prestadores
  • Revisão dos valores das mensalidades do plano

“Acreditamos que conseguiremos avanços, mas sabemos que só seremos ouvidos com a pressão dos empregados”, avalia Takemoto.

O que diz a Caixa?

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Imagem: @wavebreakmedia_micro / Freepik

Em nota oficial, a Caixa afirma que tem investido em programas de qualidade de vida e que, em 2023, registrou a menor taxa de absenteísmo do setor bancário (3,18%). O banco também destaca que suas iniciativas de saúde atingiram 82,47% dos empregados e que o Saúde Caixa conta com programas de prevenção para doenças crônicas.

Além disso, a Caixa garante que há transparência na gestão do plano de saúde, com relatórios disponíveis aos beneficiários. No entanto, sindicatos contestam essa afirmação, alegando que dados financeiros e administrativos do plano não são acessíveis à categoria.

O futuro da luta dos funcionários

A crise de saúde mental entre funcionários da Caixa reflete um problema estrutural no setor bancário brasileiro. Enquanto trabalhadores denunciam pressões excessivas, modelos de gestão desgastantes e falta de suporte, a instituição segue registrando altos lucros.

A mobilização dos empregados e a pressão sindical seguem como as principais ferramentas para reivindicar direitos e garantir um ambiente de trabalho mais saudável. Resta saber até que ponto a Caixa estará disposta a negociar mudanças que beneficiem seus trabalhadores.

Imagem: Martin Lauge Villadsen / Shutterstock.com

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